Guerra Espiritual e evangélicos

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 Uma das polêmicas atuais no mundo evangélico é o tema Batalha Espiritual.
O curioso é que a polêmica não divide uma denominação contra a outra, porque há na mesma denominação igrejas que defendem cada uma das teorias da batalha espiritual. E é comum encontrar pessoas que crêem em todas as correntes teológicas dentro de uma mesma igreja, seja tradicional, pentecostal ou neo-pentecostal. Apenas nas tradicionalmente pentecostais não há abertura para o assunto. Realmente não há um consenso. Para comprovar a diversidade de crenças, basta conferir as igrejas que convidam os diversos ministérios de libertação para realização de seminários de batalha espiritual.
A exemplo das teorias escatológicas, a batalha espiritual divide os evangélicos em três grupos - conforme Max Anders escreve em seu livro Guerra Espiritual em 12 lições (Editora Vida). A primeira corrente teológica defende a resistência espiritual, que tem entre seus adeptos John MacArthur. Essa teoria acredita que na salvação o evangélico recebe tudo de que precisa para derrotar o inimigo e que não se deve expulsar demônios, apenas "resistir e ele fugirá". Nega que um cristão possa ser habitado por demônios porque evidencia a ausência da salvação genuína.

O segundo grupo defende o combate da verdade e tem entre seus autores Neil Anderson. Outros defensores dessa teoria são Alcione Emerich, Neuza Itioka, Rebecca Brown e Russell Shedd. Eles acreditam que resistir inclui o exercício da autoridade. Crêem que os demônios podem apegar-se a evangélicos desobedientes ao ponto de um evangélico ser habitado por um ou mais demônios. Não expulsam demônios, mas levam o evangélico a resolver seus conflitos espirituais e ser liberto.

E por último há a teoria do combate do poder, que tem Mark Bubeck e Ed Murphy como defensores. Essa teoria crê nas mesmas coisas que a do combate da verdade, mas defende que é um ministério válido expulsar demônios das pessoas, cristãs e não-cristãs, ou seja, praticar o exorcismo.

Pecados não-confessados - A segunda teoria é a que tem trazido a maior diversidade de pensamentos entre os evangélicos. Para entender essa corrente, que defende que o evangélico pode ter demônio, é preciso saber o que significa o termo endemoninhado. Neuza Itioka, pastora e diretora do Ágape Reconciliação Ministério de Libertação, diz que a palavra no grego, que em português significa endemoninhado ou endemonizado, significa ter demônios ou estar com demônios. "A tradução mais literal e precisa tem que ser essa: ter demônios. O endemoninhado é a pessoa que tem demônio em uma determinada área da vida. Pode ser na área da religiosidade, na área do sexo, ou na área da glutonaria", afirma. O termo possessão não existe na Bíblia e o que se entende por possessão é a manifestação do demônio, que está com a pessoa 24 horas, mas que se manifesta quando "provocado", por exemplo quando a pessoa entra em uma igreja ou quando alguém ora por ela. Mas há pessoas que são controladas por demônios e que nunca terão uma manifestação da entidade e talvez nunca saberão que têm um demônio.

Para se chegar ao estágio de ter demônio, o evangélico precisa estar na fase do pecado compulsivo, em que não consegue deixar de cometer aquele pecado. Se o evangélico pecar uma vez e confessar, não há o endemoninhamento. Este só vai ocorrer com o tempo, depois de muito pecado repetitivo, quando a pessoa se torna cauterizada à voz do Espírito Santo.

Outro ponto interessante é que a questão da libertação não é uma coisa nova. No início do cristianismo, quando a pessoa se convertia precisava passar por um processo de libertação, como se encontra na Didaquê, escrita entre os anos 90 e 100 depois de Cristo. Na igreja primitiva, a classe de catecúmenos era um período de libertação espiritual e, se necessário, expulsão de demônios, e incluía discipulado na Palavra de Deus. A explicação que se tem é que hoje a pessoa levanta a mão e adere e que, na verdade, quando a pessoa não é convertida ela é um ser em rebelião contra Deus, tem uma bagagem cultural e espiritual de inimizade contra Deus e sai do reino das trevas para o reino da luz, então ela precisa renunciar todo o seu envolvimento com o ocultismo. E é por isso que as pessoas que aderem às igrejas e não passam pela libertação, continuam sofrendo todos os problemas espirituais, físicos e emocionais.

Salvação é para não-evangélicos e libertação é para evangélicos - Os defensores do combate da verdade afirmam que muitos evangélicos precisam de libertação. Para Neuza Itioka, o evangélico precisa resolver o seu passado. Se a pessoa, depois de aceitar a Jesus não passa por uma libertação bem feita, os demônios que atuavam nessas áreas podem ficar escondidos e realmente impedir o crescimento do cristão. "O diabo é muito legalista. Qualquer deslize da nossa parte, especialmente se nós persistirmos naquela prática, através daquele pecado, o diabo tem o direito de atuar na vida da pessoa", diz a pastora.

O ministério de libertação, quase sempre ligado ao ministério de intercessão, tem sido o responsável pelo tema batalha espiritual nas igrejas. Marco Guimarães Gaglianone e sua esposa, Isabel Arminda Gaglianone, membros da Primeira Igreja Batista em Friburgo, RJ, são exemplo disso. Eles usam a estratégia de oferecer um curso de cura interior e libertação, tanto na igreja quanto nos centros de recuperação e presídios em que ministram. O curso consiste no estudo de nove passos para a libertação, baseado no livro de Neil Anderson, Passos para liberdade em Cristo (Danprewan Editora), acrescido de mais dois passos: simbologia das trevas e palavras liberadas. "Quando a pessoa começa a orar e jejuar, a libertação vai acontecendo. Nós vamos acompanhando as vidas sendo libertas, as fisionomias sendo transformadas", declara Marco. No curso eles ensinam que a pessoa deve orar citando a Bíblia, o que eles chamam de orar a Palavra, e deve fazer isso diversas vezes por dia. Marco começou seu ministério evangelizando surdos e meninos de rua e percebeu que sempre enfrentava muitos demônios. A surpresa é que não eram apenas em não-evangélicos que eles se manifestavam, mas os que já haviam sido salvos ainda eram dominados por demônios.

Outro exemplo é a Primeira Igreja Batista de Trindade, em Niterói, RJ, que iniciou o ministério dos Guerreiros de Oração há 15 anos. Adelir Eugênio da Silva é a responsável pelo ministério desde sua criação. Ela conta que antes a igreja estava fraca, o culto de oração era freqüentado por meia dúzia de pessoas. Quando iniciaram o ministério de libertação, passaram a realizar reuniões de oração às terças-feiras. No primeiro culto havia 30 pessoas. "O trabalho começou a crescer e a sala ficou pequena para tanta gente e passamos a usar o santuário, com capacidade para duas mil pessoas, que hoje fica cheio toda semana", conta Adelir. Eles fazem ministrações coletivas e só em casos específicos é que fazem também ministração individual.

A Igreja Presbiteriana Independente de Londrina, PR tem o sistema de células e não há um ministério específico de libertação, mas desde 1995 eles praticam batalha espiritual. Há um curso de formação espiritual, antes do batismo, visando cura interior e libertação. Todos os líderes de células são treinados para libertação. Os casos mais difíceis são encaminhados para a equipe do presbítero Valdony Porto, que é o responsável pelo ministério. "A igreja que não olhar para isso terá dificuldade de crescimento, porque o momento atual é de opressão e a igreja deve ser o canal para a libertação dessas pessoas", afirma o presbítero.

Silvio Figueiredo, um dos pastores da Igreja Batista da Floresta, em Belo Horizonte, MG, diz que eles não entendem como ministério específico o de libertação, porque isso faz parte do Ide de Jesus, como diz em Marcos 16.15-18. Toda a igreja é preparada para ministrar libertação aos que vão sendo salvos. Eles realizam mensalmente um retiro de dez dias, em que não há lazer, só estudos bíblicos e louvor. O participante tem noções bíblicas e são feitas ministrações individuais de libertação e cura interior. "Libertação é para quem crê e permanece, conforme diz em João 8.30-32", afirma pastor Silvio.

Exorcismo é diferente de libertação - Adeptas da segunda teoria e responsáveis pela divulgação da visão de libertação no meio evangélico, Rebeca Brown, nos Estados Unidos, e Neuza Itioka, no Brasil, têm em comum o ministério de libertação há mais de trinta anos.

No início do ministério, Rebecca e Neuza confessam que cometeram vários erros, e as duas afirmam que o principal erro foi expulsar demônios de não-evangélicos. As duas contam que aprenderam na prática, com tentativas e erros. Para elas não adianta libertar um não-evangélico, porque os demônios voltam e trazem outros sete, como diz a Bíblia, em Mateus 12.43-45. Hoje elas só ministram a pessoas convertidas e batizadas, mas não praticam o exorcismo. Através de estudos e palestras, levam a pessoa a fazer sua auto-libertação. A diferença é que exorcismo é livrar alguém de um demônio, expulsá-lo em nome de Jesus e libertação é ajudar a pessoa a fechar todas as portas que abriu através de pecados não-confessados e assim tirar o direito que o demônio tinha para agir.

Neuza Itioka iniciou esse trabalho em 1973, quando participava da Aliança Bíblica Universitária. Ela conta que tudo começou quando um aluno que havia sido kardecista disse que não sabia o que estava acontecendo com ele, porque sua mente estava cheia de palavrão e que esteve desacordado por horas no banheiro. "Eu então comecei a orar. Eu não podia imaginar que eram demônios, eu não tinha conhecimento disso naquela época. E enquanto eu orava, vi que o menino ficou todo torto na minha frente. Eu fiquei assustada e parei de orar. Aí ele gritou: ‘Não, continua, porque enquanto você está orando eu sinto alívio'. E assim começou o confronto com uma legião de demônios que estava naquele rapaz", conta a pastora. Viajando pelo Brasil e exterior, ela e sua equipe falam a cada ano para cerca de 22 mil pessoas e fazem de 2.000 a 2.500 ministrações individuais por ano. Desse grupo, 10% são pastores.

Rebecca Brown, através de seus livros, ainda é um nome que produz sentimentos díspares. Alguns a amam, outros a odeiam. Jorge Wanderley, editor de alguns de seus livros no Brasil, dono da Danprewan Editora, diz que sua visão do trabalho de Rebeca Brown é que ela teve uma experiência real com o satanismo quando ajudou na libertação de uma bruxa. "Ela não é formada em teologia e por isso seus livros são embasados na própria experiência e os críticos reclamam da falta de base bíblica, apesar das citações que ela faz. Mas depois veio Neil Anderson, que é um pastor batista, dizendo muita coisa que a Rebeca dizia, com fundamentos bíblicos, e depois outros autores teólogos confirmaram o que ela falou em seus livros, isso veio validar o trabalho de Rebeca Brown. Ela trouxe uma contribuição para o Brasil indiscutível, para abrir os olhos da igreja com relação ao mundo espiritual", diz Wanderley.
Débora De Bonis

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