Um Deus de Surpresas em um Mundo de Certezas

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Por Hermes C. Fernandes

Houve tempo em que o ser humano enxergava a vida como algo sagrado, e o futuro como algo inusitado, repleto de mistério. Aí residia a beleza da vida. Tudo podia acontecer. Por isso, o homem se agarrava à divindade, em busca de alguma garantia.


Não havia planejamento familiar. De repente...pimba! a mulher se engravidava. E por nove meses, ninguém sabia o sexo da criança. Até que... surpresa!


Com o advento da ciência, o homem se viu capaz de fazer certas previsões.


Baseados em dados estatísticos adquiridos em pesquisas pré-liminares, pode-se prever quem será o candidato eleito. Com um aparelho de ultra-som, pode-se saber o sexo do nenê. Satélites meteorológicos dizem com certa precisão se vai chover ou fazer sol nos próximos dias. Finalmente, o homem parece ter se tornado senhor do seu próprio destino. Nada mais o apanharia de surpresa.



Tudo ia bem, até que se descobriu a mecânica quântica. As postulações newtonianas de que pela ciência as leis da natureza poderiam ser decodificadas, tornando-a previsível e domesticável caíram por terra. No mundo subatômico nada é previsível. Não há como determinar a posição exata de uma partícula. Aliás, o que é partícula em uma primeira olhada, pode ser onda na segunda verificação. Até a ordem temporal é subvertida.
 



Surpresa! As descobertas da física quântica foram permitidas por Deus para que a presunção humana fosse desbancada, e o homem redescobrisse o valor da surpresa.


Enquanto a física clássica, defendida por Newton, se atreve a falar da realidade, a física quântica, mais humilde, fala de probabilidades. A realidade não é o que parece ser. O que existe são ondas de probabilidades ou ondas de matéria. Todas as leis da física quântica são expressas em termos dessas probabilidades. O próprio fundamento da visão mecanicista - o conceito de realidade da matéria - foi posto abaixo, pois no nível subatômico os materiais sólidos dissolvem-se em padrões de probabilidades semelhantes a ondas.


Suscito aqui uma questão: nossa ralação com Deus e com o futuro se baseia em certezas ou em surpresas?


Ora, sabemos pela Bíblia que a relação do homem com Deus só é possível mediante a fé. E qual seria a definição bíblica de fé?


“Ora, a fé é a certeza das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem.”Hebreus 11:1


A princípio, fica claro que nossa relação com Deus deve ser pautada na certeza. Mas certeza de quê? Será que tal certeza suprimiria qualquer possibilidade de surpresa? Basta avançarmos no famoso texto conhecido como galeria dos heróis da fé, pra nos darmos conta de que a certeza da fé não descarta uma caminhada com Deus repleta de surpresas.


“Pela fé Abraão, sendo chamado para um lugar que havia de receber por herança, obedeceu e saiu, sem saber para onde ia” (Hb.11:8). A fé do patriarca fez com ele se dispusesse a deixar sua zona de conforto, para sair ao encontro do desconhecido. A vida pela fé é uma vida de aventura radical.


Somos informados que Abraão “esperava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e construtor”(v.10). Então, ele esperava por algo, e tinha certeza de que se concretizaria, fosse em seu tempo de vida, ou das próximas gerações. Esta era a sua certeza. Quando se fala de surpresas, fala-se de incertezas.


A vida de fé também é uma vida de incertezas. Não sabemos o que nos aguarda na próxima curva da estrada. Temos um vislumbre do que nos espera no final, mas não do que nos espera no caminho.


Vivemos a dialética entre certezas e surpresas. A síntese resultante desta dialética é a fé. Fé é a confiança absoluta n’Aquele que nos guia pela estrada da existência. Não é simplesmente crer em fatos, mas crer em uma Pessoa. É arriscar tudo em Seu caráter fidedigno. Como fez Sara, que“teve por fiel aquele que lhe havia feito a promessa” (v.11b). E não apenas crer no caráter divino, como também em Sua capacidade em cumprir o que prometera. Paulo diz que Abraão“não duvidou da promessa de Deus, deixando-se levar pela incredulidade, mas foi fortificado na fé, dando glória a Deus, estando certíssimo de que o que ele tinha prometido também era poderoso para cumprir” (Rm.4:20-21).


Às vezes Deus nos revela o “quê”, mas não nos revela os pormenores, o “como”, ou o “quando”. E isso para que não percamos o prazer proporcionado pela surpresa. Tudo indica que Deus Se alegra em nos surpreender. Ele não quer que nosso relacionamento com Ele caia na mesmice, na monotonia, e assim, se torne entediante. Antes o estresse da expectativa do inesperado, do que o tédio produzido pelo previsível. Por isso, Deus não cabe dentro de padrões. Ele é absolutamente imprevisível! Querer prever Suas ações baseado em episódios anteriores é, no mínimo, uma completa idiotice.


Ele não costuma ser repetitivo, redundante. Quantas vezes Ele abriu o Mar? Apenas uma. De outra feita, Ele preferiu andar por cima das águas. Ele sempre surpreende. Impossível prever Seus movimento!


Tal como o marido, que para manter acesa a chama da paixão, procura surpreender sua amada de tempo em tempo. Não há veneno mais prejudicial para o casamento do que a monotonia. E não há antídoto mais poderoso do que a surpresa. Pergunte a uma esposa que foi surpreendida com um bouquet de flores em uma data qualquer.


A vida com Cristo é sempre repleta de surpresas. Durante Sua trajetória neste mundo, Ele sempre surpreendeu Seus seguidores, e até Seus opositores. Ele nunca dava a resposta que as pessoas esperavam receber. Suas parábolas eram cheias de suspense.
 



Será que o filho pródigo esperava ser recebido com festa pelo seu pai? Será que o homem moribundo esperava ser socorrido logo por um samaritano?


Os apóstolos também aprenderam desde cedo que Deus é um Deus de surpresas. Ou será que Pedro esperava que Cornélio fosse repentinamente cheio do Espírito enquanto ele ainda pregava?


Até piada, se contarmos o final, perde a graça!


Deus usualmente mantém certo suspense para não estragar a surpresa. E não falo apenas de surpresas agradáveis. A vida também nos reserva surpresas desagradáveis. E quando Deus mantém o segredo referente a isso, Ele deseja nos poupar de um sofrimento antecipado.


Em sua despedida dos efésios, Paulo declarou:


“E agora, compelido pelo Espírito, vou para Jerusalém, não sabendo o que lá me há de acontecer. Somente sei o que o Espírito Santo de cidade em cidade me revela, dizendo que me esperam prisões e tribulações” (At.20:22-23).


Paulo não tinha idéia dos pormenores daquilo que o esperava. Ele não podia supor que seria confundido com um terrorista egípcio em Jerusalém, e que isso lhe renderia uma prisão injusta (At.21:38). Ele não podia imaginar que seria alvo da conspiração de judeus que se dispuseram a jejuar até que sua vida fosse ceifada (At.23:12). Ele jamais preveria passar por um naufrágio (At.27:13-44). Tudo isso é apenas um resumo do que Paulo teve que passar depois de despedir-se dos anciãos de Éfeso. Será que Deus foi injusto em lhe poupar de saber dos detalhes de tudo quanto sofreria por amor à causa de Cristo? Absolutamente, não.


Já que Jesus é a nossa vida, posso parafrasear o Zeca Pagodinho, dizendo: “Deixo Cristo me levar, Cristo leva eu...”


Sejam quais forem as surpresas desagradáveis que nos aconteçam, temos a certeza de que após essas acentuadas curvas na estrada da vida, surpresas maravilhosas estão a nos aguardar.


Minha única certeza é que no final teremos surpresa.


“As coisas que o olho não viu...”, surpresa!


“...e o ouvido não ouviu...”, surpresa!


“...e não subiram ao coração do homem...”, surpresa!


“...são as que Deus preparou para os que o amam” (1 Co.2:9).


Você tem idéia do que nos espera no final da estrada? Não? Nem eu! Você imagina, por exemplo, quem você vai encontrar do outro lado? Não? Nem eu! E não me arrisco a dar qualquer palpite.


Será que Estêvão, o primeiro mártir cristão, esperava encontrar Paulo na eternidade? Por isso, não temos o direito de apontar quem é ou não escolhido por Deus à salvação.


Pode ter certeza... teremos surpresas.
 


Onde está o Espírito do Senhor, aí há surpresas. Ele nos conduz de surpresa em surpresa, até a Surpresa Final.

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