O repúdio e a restauração familiar

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“Ora, a quem é casado, o SENHOR ordena que a esposa não repudie o seu marido (…); e que o marido não repudie a sua esposa” (1 Coríntios 7:10-11).
Repudiar alguém é a mesma coisa que abandoná-lo, deixá-lo, rejeitá-lo; é não querer mais viver ao lado dessa pessoa, caminhar com ela. Esse é, restritamente, o conceito de repúdio à luz da Palavra de DEUS. O próprio JESUS, o Filho de DEUS, em duas claras ocasiões, também sofreu com a dor de ser repudiado. Primeiramente quando ensinava acerca de sua morte: “À vista disso, muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele” (João 6:66); depois, quando foi preso pelos soldados romanos: “(…) então, os discípulos todos, deixando-o, fugiram” (Mateus 26:56). Mas, em nenhum momento, ELE repudiou. Antes fez uma grande promessa aos seus discípulos, que está escrita no último versículo do evangelho de Mateus: “(…) e eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mateus 28:20).
Em nenhum momento, o termo repúdio, na Bíblia, pode ter o seu significado ampliado para, por exemplo, divórcio, um instrumento civil que visa a destituir um matrimônio aos olhos de uma sociedade. Quando lemos hoje, em diversas traduções bíblicas de língua portuguesa, a expressão “carta de divórcio”, pensamos, equivocadamente, tratar-se ali do instrumento de divórcio que temos hoje. São duas coisas totalmente diferentes. O divórcio, como concebemos atualmente, nunca existiu em toda a Bíblia Sagrada. É puro erro de tradução que se arrasta até os nossos dias. O divórcio pode ser uma consequência do repúdio, mas repudiar não significa necessariamente divorciar-se. Há pessoas que repudiam outras, mas não se divorciam delas.
A expressão “divorciar-se de alguém”, comparando-se aos tempos bíblicos, é bem recente; e foi incorporada, à medida que as leis do divórcio foram surgindo em diversos países e culturas, ao hall amplo do significado da palavra repúdio (é por isso que encontramos facilmente nos dicionários atuais a palavra divorciar-se fazendo parte do conjunto de significados da palavra repudiar). Em princípio, então, é errado traduzir o repúdio bíblico (o ato de rejeitar alguém) para o termo divórcio, surgido na modernidade. Moisés permitiu que os judeus, especialistas que eram em repudiar as suas esposas, dessem um documento escrito à mão as mesmas, para que elas não passassem a ser tão subjugadas e duramente recriminadas por uma sociedade altamente machista e preconceituosa. Ora, não era permitido sequer que uma mulher repudiasse o seu marido, mas o ato de repudiar competia somente à figura masculina, se quisesse, cometê-lo. À mulher não lhe era dado nem o direito de escolher o noivo com o qual gostaria de se casar e viver toda a vida. Antes, ela era entregue como dote pelo pai para um homem judeu, que ele (o pai) julgasse ser conveniente casar-se com a sua filha. Tal homem exigia se casar com uma mulher que fosse virgem, não tivesse ainda o rompimento do hímen por meio da relação sexual. Se esse homem, na noite de núpcias, descobrisse que a recém-esposa houvesse fornicado antes do casamento com outro homem, esse marido, segundo a lei, poderia repudiá-la. Essa é a explicação da suposta cláusula de exceção presente em Mateus 5:32 e 19:9 e inserida por um dos últimos revisores do evangelho de Mateus. Dificilmente, muito dificilmente, uma mulher repudiada seria reintegrada à sociedade ou mesmo conseguiria viver sozinha, em uma vida de temor e santidade. Ao contrário, quase todas se entregavam à prostituição, ao adultério, saindo com homens casados, e morriam apedrejadas, pois, a lei mosaica também as proibiam de retornar ao primeiro marido, se assim elas desejassem: “Se um homem tomar uma mulher esse casar com ela, e se ela não for agradável aos seus olhos, por ter ele achado coisa indecente nela, e se ele lhe lavrar um termo de repúdio, e lhe der na mão, e a despedir de casa; e se ela, saindo da sua casa, for e se casar com outro homem; e se este a aborrecer, e lhe lavrar termo de repúdio, e lhe der na mão, e a despedir da sua casa ou se este último homem, que a tomou para si por mulher, vier a morrer, então seu primeiro marido, que a despediu, não poderá tornar a desposá-la para que seja a sua mulher, depois que foi contaminada, pois é abominação perante o Senhor; assim, não farás pecar a terra que o Senhor, teu Deus, te dá por herança” (Deuteronômio 24:1-4). Note que a tal lei ia de encontro a tudo o que DEUS havia instituído sobre o casamento em Seu projeto inicial. Totalmente desprovida de graça e misericórdia, não permitia que a esposa voltasse para o seu primeiro marido, se esta viesse a ser repudiada pelo segundo marido, com o qual, óbvio, ela manteve relações sexuais. Esse segundo casamento, para essa lei judaica, não seria considerado adultério, se o primeiro marido tivesse entregado nas mãos de sua verdadeira esposa o comunicado de repúdio. Para os judeus defensores da escola de Hillel, uma mulher nessa situação não era considerada adúltera e poderia contrair novas núpcias, ou seja, estaria livre de ser apedrejada. Em Mateus, capítulo 19, JESUS CRISTO desfaz toda essa lei, retomando o sentido original do casamento instituído por DEUS, inaugurando o caminho do perdão e da restauração familiar. JESUS, simplesmente, fecha todas as brechas da lei e ratifica que casamento válido é apenas o primeiro.
Observe também que a lei mosaica, permitida pela dureza do coração dos judeus, além de ser machista, era injusta, impiedosa e irreconciliável. A mulher se tornara vítima do marido e ao mesmo tempo culpada, por ter se tornado adúltera com outro homem, e sem chance de regeneração. Tanto a mulher como o homem que com ela adulterasse, se fossem pegos em flagrante adultério, segundo a lei, a pena era a morte por apedrejamento: “Se um homem adulterar com a mulher do seu próximo, será morto o adúltero e a adúltera” (Levítico 20:10).
Como vimos, o ato de repudiar um cônjuge trazia e ainda traz prejuízos espirituais enormes. Sabendo da possibilidade desses graves e tristes riscos ao casamento, o apóstolo Paulo começa o capítulo 7, da Primeira Carta que escreveu aos Coríntios, aconselhando: “seria bom que o homem não tocasse em mulher; mas por causa da prostituição, cada um tenha a sua própria esposa, e cada uma, o seu próprio marido” (1 Coríntios 7:1-2). Paulo sabia que, muito dificilmente, uma pessoa que repudiasse o seu cônjuge conseguiria viver sem se envolver sexualmente com uma terceira pessoa. O mal desse novo envolvimento, constituindo, segundo as palavras de JESUS, em adultério (Marcos 10:11-12 e Lucas 16:18), seria, se não houvesse arrependimento, abandono do pecado e restauração ao estado inicial, a morte: “Ou não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus. E tais fostes alguns de vós” (1 Coríntios 6:9-11)(grifo meu).
O caminho de quem repudia é muito mais espinhoso e perigoso do que o caminho de quem é repudiado (a). É mais fácil um repudiado se convencer de que não pode mais se envolver com uma terceira pessoa enquanto o seu cônjuge estiver vivo, lutar pela restauração da sua família, do que quem repudia se convencer de que deve liberar perdão e voltar para casa. Por uma simples razão: todo e qualquer casamento vai passar por suas crises, seus problemas. Mas, nenhum cônjuge deveria buscar o caminho do repúdio como solução a esses problemas. Se algum dos dois fizer, estará transgredindo a principal bênção de DEUS sobre o casamento: a unidade espiritual construída sobre marido e esposa. Quem toma iniciativa de repudiar tenta transformar aquilo que DEUS fez um em dois novamente. O um de DEUS foi selado, testemunhado, registrado no céu, e assim será até o dia da morte de um dos cônjuges. O dois de quem repudia gera adultério, ilusão, falsa felicidade, desgraça espiritual, perda da salvação. Quem repudia deixa de viver sob a guarda do Espírito Santo e passa a viver em uma cegueira espiritual, de forma impiedosa, coração endurecido, comandado por satanás e seus anjos caídos. Observe o que escreveu o sábio Salomão sobre a mulher adúltera: “porque os lábios da mulher adúltera destilam favos de mel, e suas palavras são mais suaves do que o azeite (ilusão); mas o fim dela é amargoso como o absinto, agudo, como a espada de dois gumes. Os seus pés descem à morte; os seus passos conduzem-na ao inferno (realidade final). Ela não pondera a vereda da vida; anda errante nos seus caminhos e não o sabe (cegueira espiritual). Agora, pois, filho, dá-me ouvidos e não te desvies das palavras da minha boca. Afasta o teu caminho da mulher adúltera e não te aproximes da porta da sua casa; porque não dês a outrem a tua honra, nem os teus anos a cruéis; para que dos teus bens não se fartem os estranhos, e o fruto do teu trabalho não entre em casa alheia (falência material), e gemas no fim da tua vida, quando se consumirem a tua carne e o teu corpo, e digas: ‘Como aborreci o ensino! E desprezou o meu coração a disciplina! E não escutei a voz dos que me ensinavam, nem a meus mestres inclinei os ouvidos’ (remorso). (…) Quanto ao perverso, as suas iniquidades o prenderão, e com as cordas do seu pecado será detido. Ele morrerá pela falta de disciplina, e pela sua muita loucura, perdido, cambaleia” (Provérbios 5:3-13 e 22-23) (acréscimos meus). Portanto, o único caminho para quem repudiou o seu cônjuge, abandonando o lar, por mais que tenha sido vítima de um grave problema no casamento, é buscar a reconciliação através do diálogo, liberando perdão e também se arrependendo do que fez. Essa é a única possibilidade de maridos e esposa serem abençoados por DEUS: enfrentando as lutas juntos, buscando soluções; nunca através do repúdio. DEUS não está na vida de quem repudia, pois o repúdio é um ato de covardia, de irresponsabilidade, de impiedade e de rebelião contra o Espírito Santo. O caminho da restauração, da reconciliação, do perdão, gera as bênçãos de DEUS sobre a família. Mas o caminho da impiedade gera pecado e morte, distanciamento de DEUS. Basta que consultemos o número de pessoas adúlteras que são mortas no mundo diariamente. Casos de “maridos” que assassinam “esposas”, divulgados na mídia todos os dias que, quando investigados, eram, para DEUS, relação de adultério.
Além de todas as consequências espirituais acima, bem descritas por Salomão, presentes na vida de quem repudia o seu cônjuge e se deixa ser atraído por uma terceira pessoa adúltera, há uma outra que merece atenção: quem repudia expõe a pessoa repudiada a também tornar-se adúltera. Um cônjuge repudiado só se torna adúltero se não quiser lutar pela restauração da família, pagar o preço pela vida do cônjuge opresso, crer e esperar pelo milagre de DEUS da restauração familiar. Mas, ainda que ele deseje isso, poderá enfrentar outros quatro tipos de repúdio: o repúdio da família, da igreja, da sociedade e de si próprio. Os familiares, a igreja (com raras exceções), a sociedade passam a não acreditar mais que aquele casamento seja renovado, restaurado por DEUS. Passam a punir severamente o repudiador e a incentivar o repudiado a buscar a sua própria felicidade nos braços de outra pessoa. Ou seja, quem é repudiado pelo cônjuge enfrenta também outros tipos de repúdio, além de isolamento social. Mas, a meu ver, um dos piores repúdios (sem querer ser redundante) é aquele em que o repudiado promove contra si próprio. Não ver mais caminhos a frente, não ter mais chão para pisar, viver dias e noites em vales de lágrimas, solidão e dor, não ter apoio de ninguém (nem mesmo dos irmãos e pastores da igreja), viver uma vida sem direção, sem rumo, sem objetivos, a dificuldade de recomeçar, são a realidade de quem se repudia.
Por mais que a dor do repúdio insista em gritar dentro do coração do repudiado, é preciso buscar forças para recomeçar a caminhada com JESUS. Colocar JESUS como centro de tudo, fortalecer-se espiritualmente, receber um correto aconselhamento e, se possível, ser acompanhado (a) de perto por um conselheiro são caminhos que ajudam muito quem foi repudiado a atravessar o deserto mais rápido até obter a vitória. Ajudam-no a obter novamente saúde espiritual, a compreender os erros passados, a ser uma esposa e um marido segundo a vontade de DEUS, a andar e a viver conforme a Palavra do PAI, além de proporcionar experiência, maturidade pessoal e espiritual a pessoa repudiada. É o chamado “deserto com propósitos”, como bem escreveu Paulo: “(…) mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança. Ora, a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado” (Romanos 5:3-5). A palavra perseverar significa não desistir jamais. Esse é o prêmio e o grande galardão dos salvos, dos santos remidos, dos justos que um dia herdarão a glória de DEUS: “E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de quase todos esfriará. Aquele, porém, que perseverar até o fim, será salvo” (Mateus 24:12-13). Essa promessa também serve para os que foram repudiados e desejam ter a família restaurada para a glória de DEUS. Tome posse dela! DEUS nos abençoe!

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